A ESCRAVIDÃO DA FORMA

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Todos nós, espiritualistas de um modo geral, sabemos muito bem que o espírito não tem forma. Mas, quando assim falamos, estamos apenas nos referindo ao espírito mais liberto da matéria, que está muito além de nosso atual nível de evolução na Terra. Como a água, a energia, a luz, o ar, o espírito, em sua essência, realmente também não tem forma, como esses elementos que fazem parte do universo.

Todavia, se pensarmos no espírito ligado à matéria, ainda que seja mais sutil do que a matéria do plano físico deste planeta, ele está revestido de matéria de algum tipo, e tem forma. Por isso vemos os espíritos, quando estamos fora do corpo, ou às vezes até mesmo quando estamos acordados, em seus corpos espirituais, corpos astrais, ou perispírito, normalmente assumindo a forma de seu último corpo utilizado na Terra.

Vivemos em um universo cheio de formas, de cores, de sabores, de cheiros. É o universo fenomênico. E nos inserimos nesse meio, e acabamos normalmente nos afeiçoando, nos apegando, a muitas formas, sons, cores, sabores, etc. O apego é natural, dentro do nosso atual nível evolutivo.

Se o leitor leu antes o artigo que escrevi sobre a sociedade erotizada, percebeu como a forte propaganda do erotismo nos influencia, e ajuda a nos manter presos ao erotismo.

Este novo texto é quase uma continuação, sendo mesmo um complemento do anterior, acima citado.

O erotismo trabalha essencialmente em cima da forma. O sexo está muito ligado à forma. O apego existe também em relação à forma.

No início da humanidade, as pessoas andavam quase nuas, mas não estavam tão ligadas à forma do corpo. Depois, à medida que a civilização foi se tornando mais e mais complexa, e as roupas foram se desenvolvendo, principalmente nas regiões mais frias do planeta, o corpo foi sendo escondido, e em alguns países não se via quase nada do corpo. As pessoas passaram a se cobrir do tornozelos até o pescoço.

Na década de 1960, já no século XX, principalmente, iniciou-se um grande movimento de liberação sexual, o que envolveu também a retirada das roupas, cada vez mais, o que aconteceu muito na época do movimento hyppie.

De lá para cá, as roupas só foram reduzindo de tamanho, cada vez mais, em minissais, shortes, sungas e biquínis, de modo a mostrar cada vez mais o corpo, e em cima disso foi se desenvolvendo a idéia de um erotismo exacerbado e sem limites, e sem precendentes anteriores na história da humanidade.

Hoje, com a propaganda usando mulheres e homens fisicamente perfeitos, e o incentivo à aquisição de corpos perfeitos, as pessoas entraram na onda, e buscam corpos perfeitos, formas perfeitas, de acordo com um padrão estabelecido pela moda.

Homens e mulheres tentam se tornar tão belos fisicamente quanto artistas e modelos que vivem de suas aparências, e têm horas por dia para fazerem exercícios em academia e se embelezarem em salões de beleza, o que a pessoa que trabalha não pode fazer. Com isso, a competição é desleal, absurda, e impossível. E muita gente está ficando infeliz por não conseguir aquela barriguinha “tanquinho”, ou aquele braço “sarado”, “malhado”, etc.

Vejo mulheres preocupadas com umas poucas celulites e falando em lipoaspiração; mulheres falando em colocar silicone nos seios; preenchimento labial; homens implantando cabelo e colocando também silicone no peitoral, para aumentá-lo, e até mesmo nas nádegas. Tudo para ficar perfeito, e se tornar mais belo e desejável.

A corrida pelas academias não pára. Todos buscam uma alimentação mais balanceada, mais equilibrada, com menos calorias, menos gordura, mas nem sempre preocupados com a saúde corporal, e sim apenas com a estética, com a forma externa.

A magreza em alguns casos se torna doentia, e a anorexia se espalha em meio à miséria. Ricos anorexos, para ficar magros, em meio a mendigos magros por falta de comida.

Estamos nos tornando cada vez mais escravos da forma. Escravos da mídia, dos modelos de beleza estabelecidos pelas modelos de capas de revista, e pela indústria da moda e das academias.

Nessa escravidão, acabamos, sem querer, e sem termos consciência, atropelando uns aos outros.

Quantos homens já trocaram suas esposas por mulheres mais jovens, de corpo mais esbelto, dentro do padrão da moda, magras, esguias, sem um mínimo de celulite ou estrias. Mas isso não dura muito, porque com o tempo todos ganham peso e as estrias chegam, e também as celulites. Para conquistar, todo mundo malha, come menos, se embeleza, mas com o tempo relaxa, e então as amantes se tornam iguais às esposas, e é hora de trocá-las também, quando não há verdadeiro amor, mas apenas apego às formas, à beleza externa, à embalagem.

As amantes de hoje serão as esposas de amanhã, sujeitas, por sua vez, a serem igualmente trocadas por outras mulheres mais jovens e sem celulite.

As pessoas estão correndo cada vez mais para as clínicas de cirurgia plástica para remodelar o nariz, a orelha, os seios, a boca, implantar cabelo, etc. Tudo em busca da aparência mais atraente, para facilitar o acolhimento nas relações amorosas. Parece que a felicidade está presa e dependente da forma. Os feios não podem ser felizes? A felicidade está mesmo na aparência jovem, sem cabelos brancos, sem rugas, de coluna ereta?

E o amor, onde fica diante de tudo isso? O amor que não transcende a forma não é amor real. É apenas paixão. E paixão está ligada à forma.

As pessoas normalmente se casam jovens, ainda na fase da paixão fácil e rápida. Todos belos, malhados, magros, sem estresse. Mas com o tempo, passam a se conhecer melhor, e a ilusão das formas vai gradativamente diminuindo, até quase desaparecer. E então fica só a essência de cada um, o que temos verdadeiramente por dentro. É preciso parar de correr atrás de quimeras. A felicidade não está em coisas transitórias, como a aparência externa, como a juventude, que vai embora rapidamente. Ontem eu tinha vinte anos, hoje já estou com cinqüenta. Logo mais estarei com setenta, se chegar lá.

Com o tempo, a essência passa a falar mais alto do que a aparência. E então aqueles que vivem baseados na aparência sofrem grandes decepções.

O erotismo vai desaparecer com o tempo. A forma vai mudar com o tempo. Um ser humano de cem anos não vai conservar a mesma aparência de quando tinha 20 ou 30 anos. E o que restará desse ser se ficar preso apenas à forma externa de seu corpo? Apenas o sofrimento da recordação de como era belo.

Preciamos compreender a ilusão das formas e nos libertar delas. Isso não quer dizer não darmos nenhuma importância à forma. Não, não é isso. Nada radical e desajustado. É apenas colocar a forma no seu devido lugar, o erotismo no seu devido lugar, e o sexo no seu devido lugar.

Hoje está tudo fora de lugar, tudo exacerbado, tudo desajustado.
Estamos presos à forma, somos seus escravos. Somos dependentes da forma. Casamos porque a pessoa é bela, em sua aparência externa, e só depois de alguns anos descobrimos como a pessoa é feia por dentro, egoísta, mesquinha, vingativa, invejosa, interesseira, etc. Não procuramos ver o conteúdo das pessoas quando a conhecemos, porque nos prendemos e nos limitamos a observar e admirar apenas a sua aparência externa, a sua beleza estética. A beleza ofusca os olhos do corpo e da mente.

Quantos se separam de pessoas maravilhosas porque elas envelheceram e já não mais correspondem às expectativas de beleza, e se casam depois com uma pessoa mais jovem e bela, mas muito mais cheias de defeitos que a anterior. Quanta incongruência há no ser humano.

Nossa sociedade privilegia os belos, que são mais colocados em lojas como vendedores, como recepcionistas em empresas, no meio artístico, na televisão para fazer propaganda, novelas, cinema, etc. O considerado feio não tem chance nesse mundo de formas e do apego à aparência.

Onde fica o espírito diante disso tudo? Quem se importa com o espírito, que nem vemos?

Quando pensamos em bem-estar, é sempre físico, ou no máximo emocional. Nunca pensamos no bem-estar espiritual. O espírito quase não é levado em conta no nosso modo de vida, em nossa filosofia materialista, que só se preocupa com a forma externa, com a aparência.

Não abandone alguém que você ama de verdade só porque ele ficou mais gordo ou mais magro, porque o cabelo caiu, os seios arriaram um pouco, as nádegas já não são tão firmes, as rugas tomaram conta do rosto, a coluna está mais envergada, etc. O amor é o que os ligará por toda a eternidade. A aparência desaparece com rapidez do vento, diante da eternidade.

São algumas reflexões para o leitor.
Você é escravo da forma? Pense, reflita, e seja honesto consigo mesmo, porque só assim começará a trilhar o caminho da sua libertação da escravidão da forma que nos prende há tantos milênios neste planeta.

Muita paz.
Salvador, 14 de outubro de 2008.
Luiz Roberto Mattos

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