A TRAIÇÃO DE JUDAS

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Há muitos anos que penso em escrever alguma coisa sobre a traição de Jesus na época da Páscoa. Mas somente agora resolvi de fato fazê-lo.

O protagonista da traição, Judas, nunca foi perdoado pelos cristãos, e até hoje continua sendo malhado, queimado, em sua representação em bonecos.

Sempre refleti acerca dos motivos que levaram Judas a trair Jesus, bem como em que consistiu exatamente essa traição histórica.

Uma coisa que sempre me intrigou é o fato de ter Judas se suicidado depois da traição. Se ele de fato quisesse a morte de Jesus, por que se mataria depois dela? Alguma coisa não fazia sentido para mim.

Não é possível sabermos se Jesus ao escolher,
ou aceitar Judas como seu apóstolo, se ele naquele momento já tinha conhecimento (premonição) da futura traição de Judas.

Todavia, os Evangelhos da Bíblia são claros quanto ao conhecimento que Jesus tinha da traição de Judas no momento da última ceia, pois ele disse aos apóstolos, na presença de Judas, que um dentre eles o trairia, e disse a Judas que, o que ele tinha a fazer, que fizesse logo.

Por que Jesus nada fez para impedir Judas de traí-lo, para impedi-lo de dizer ao pessoal do Sinédrio onde ele passaria a noite, para que fosse prendê-lo? Bastava Jesus dizer a Judas que ele estava errado, e que não deveria fazer aquilo. Poderia ter convencido e demovido Judas do seu intento.

Se realmente Judas foi até o Sinédrio e levou os guardas até o Monte das Oliveiras para que prendessem Jesus, e se planejou tudo isso juntamente com o pessoal do Sinédrio sem o conhecimento de Jesus, isso de fato constituiu uma traição, pois amigos não fazem isso.

Todavia, com que propósito Judas faria isso? Essa é a grande questão, a meu ver.

Em Israel, no tempo em que viveu Jesus, no século I da Era Cristã, havia várias seitas e facções do Judaísmo, a religião dos denominados judeus. Não havia uma unidade de entendimento na interpretação da Torá. Era como hoje, com várias igrejas cristãs interpretando ao seu modo, e de forma diferente, a Bíblia.

Havia os saduceus, os fariseus, os zelotas, os essênios e outros grupos mais.

Os zelotas formavam a facção mais radical, fanática, ultranacionalista, e representavam o braço armado dos judeus, em constante planejamento de revoltas e revolução contra os dominantes romanos. Eram como o MR-8 da época em Israel.

É possível que Judas fosse um zelota, que se
juntou ao grupo de Jesus em algum momento achando que Jesus eram mesmo aquele Messias previsto nas sagradas
escrituras antigas, e que ele então iria dar cumprimento a tudo quanto estava escrito sobre ele, inclusive que lideraria um exército de judeus contra os romanos, em luta de libertação, sonho do povo judeus, então dominado pelos romanos desde o ano 64 a.C.

Judas e Jesus, bem como todos habitantes de Israel na época da morte de Jesus, já nasceram sob o domínio romano. Nenhum deles sabia o que era a liberdade, a independência, e todos almejavam a restauração da independência de Israel como nação.

Quando Jesus entrou em Jerusalém, poucos dias antes de morrer, montado no jumento, exatamente como previsto nas escrituras, e para que ela fosse cumprida, como ele mesmo fazia questão de dizer, toda a população presente àquele momento histórico teve a certeza de que efetivamente Jesus era o Messias tão esperado, que finalmente havia sido enviado por Iavé para libertar o seu povo.

Com isso, quando Jesus no fim terminou deixando claro que seu reinado não seria nesse mundo, que todos deveriam amar os inimigos, incluindo também os romanos, orar pelos que os perseguiam, e fazer o bem aos que os caluniassem, e não liderou a revolta armada, então isso deve ter gerado uma grande frustração em muita gente, inclusive em Judas, que talvez fosse um zelota esperançoso de que Jesus finalmente assumisse o papel do Messias guerreiro libertador.

Sempre coloquei como hipótese que Judas não queria a morte de Jesus, e que ele o amava de verdade. Mas que ele, Judas, queria ver a revolta contra os romanos e a independência de Israel. E talvez esse sonho antigo, partilhado por todo o seu povo, fosse mais forte do que o seu amor pelo mestre.

Sempre acreditei, também, como uma hipótese real, que Judas participou da conspiração movida pelo Sinédrio para prender Jesus à noite, tendo sido usado pelo Sinédrio, tendo sido enganado em parte, pois ele não sabia que a verdadeira intenção dos sacerdotes era matar Jesus. Judas apenas achava que eles queriam interrogar Jesus, e isso faria Jesus se revelar como Messias, e revelar todos os seus poderes, e convenceria os sacerdotes de sua condição divina. Judas não achava que eles queriam matar Jesus. E certamente os sacerdotes não disseram isso a ele.

A minha convicção disso se funda no fato de ter Judas se arrependido ao ver Jesus torturado e morto na cruz, o que lhe causou arrependimento posterior, e um sofrimento insuportável, e foi isso o que levou a ele a tirar a própria vida. Não vejo outra explicação lógica para Judas se matar. Se ele quisesse a morte de Jesus, achando que ele era um traidor da pátria, porque se passara indevidamente pelo Messias sem o ser de fato, não havia razão para ele se matar.

Os sacerdotes enganaram Judas. Disseram a ele que Jesus teria que ser preso durante a madrugada para não causar tumulto na cidade, que estava repleta de peregrinos que foram até lá por causa da Páscoa, e para evitar confusão e uma intervenção violenta dos romanos durante a principal festa religiosa dos judeus.

Judas acreditou nos sacerdotes, e achando que Jesus não iria voluntariamente até o Sinédrio mostrar o seu poder, nem iria lá espontaneamente tentar convercer os sacerdotes de qualquer coisa, ainda mais depois do episódio recente da expulsão dos vendedores do templo, que havia desafiado e desagradado muito os donos do poder econômico e religioso de Israel.

Só havia uma possibilidade, então, segundo os sacerdotes, e Judas acretidou neles, que era prender Jesus durante a madrugada.

Os sacerdotes não pretendiam de fato interrogar e questionar Jesus, nem queriam verdadeiramente que ele revelasse sua natureza divina. Na verdade, acredito piamente nisso, eles já haviam julgado e condenado previamente Jesus, sem direito a defesa, e apenas queriam “legitimar” a sua prisão e condenação, entregando Jesus em seguida para os romanos matarem, já que o Sinédrio não tinha poderes para condenar ninguém à morte, o que era prerrogativa exclusiva dos dominantes romanos.

Jesus foi preso, interrogado rapidamente, e então condenado pelo Sinédrio. E isso deu início ao sofrimento físico maior de Jesus, com pauladas, socos, e depois a flagelação pelos romanos, e finalmente a crucificação e a morte.

Ao saber Judas, e quem sabe até mesmo acompanhar a certa distância, da flagelação e morte do mestre que amava, a seu modo, e com os seus limites, colocando a pátria e o sonho de liberdade acima do amor ao mestre que havia conhecido há alguns anos apenas, não suportou a dor. Sua consciência deve ter martelado fortemente a sua mente, até que ele resolveu pôr fim à própria vida e terminar com o seu sofrimento. Não aguentaria conviver com a lembrança, com a vergonha que sentia de si mesmo de ter traído Jesus, e não poderia mais encarar as pessoas. É isso o que leva uma pessoa a cometer suicídio. E foi isso o que Judas fez.

Judas em verdade, segundo acredito, foi traído e enganado pelo Sinédrio, que o usou, mas também traiu em parte Jesus, pois não disse ao mestre que levaria os guardas para predê-lo durante a madrugada. Nisso consistiu a sua traição. Mas ele não queria a morte de Jesus.

Do alto da cruz, no meio da agonia que antecedeu a morte que se aproximava, seu mestre o perdoou, assim como perdoou também a todos os outros que colaboraram para aquela situação que ele sempre soube que aconteceria. Disse ele: “Pai, perdoai, eles não sabem o que fazem”.

Isso incluía Judas. Por que Jesus o deixaria de fora desse pedido de perdão a Deus? Jesus conhecia todas as fraquesas humanas, as compreendia, e perdoava a todos.

Ele perdoou Herodes, perdoou Pilatos, e perdoou Caifás. Perdoou a todos. Ele perdoou também Judas, que equivocadamente, e em parte enganado, mas sem más intensões, contribuiu para a sua morte.

Jesus seria morto de qualquer forma, no dia seguinte, ou depois da Páscoa. Sua morte estava prevista, e ele sabia disso pelo menos desde quando se assumiu como Messias. E ele até provocou isso, sabendo o que estava fazendo, ao expulsar os vendedores do templo, e irritando enormemente os donos do poder em Israel. E Judas apenas participou como inocente útil da trama para levar Jesus à morte.

Não podemos mais continuar condenando Judas e malhando ele até o fim dos tempos. Ele, como espírito, certamente recebe a energia de ódio e de condenação dos cristãos há dois mil anos, sofrimento maior do que o que Jesus passou em algumas horas.

Jesus certamente não aprova a malhação de Judas. Ele o perdoou, e todos devem agora seguir o seu exemplo, se são de fato cristãos, por que ser cristão é seguir as orientações do cristo, e isso não pode ser feito de forma parcial, de acordo com os interesses individuais de cada um.

Perdão para Judas. Amemos Judas. Essa deve ser a vontade de Jesus.
Muita Paz.
Salvador, 05 de abril de 2009.
Luiz Roberto Mattos

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