ESCRAVOS DO DESEJO

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Um dia desses, na semana que passou, estava assistindo um capítulo da novela Caminho das Índias, da Rede Globo, por causa de aspectos da cultura indiana e hindu que gosto de obsevar, e porque já passei 21 dias na Índia, e vi o personagem do ator Lima Duarte em uma cena muito engraçada, e ao mesmo tempo patética, porque demonstra a prisão do ser humano aos desejos irrefreados e incontidos.

O personagem em questão é um sacerdote brâmane, e ele estava na rua acompanhado do seu mestre, um sadu, salvo engano, e os dois conversavam. De repente passou perto deles uma bela jovem indiana vestindo um sari avermelhado e estampado muito bonito.

O personagem de Lima Duarte parou de falar, virou-se e acompanhou com o olhar a bela mulher.

O mestre dele nada falou. Apenas acompanhou a cena e riu.

O personagem depois se virou para o meste e disse, com jeito deserperado: “Os desejos estão aqui na minha frente, pulando como se fossem sapos”.

Foi realmente muito engraçado, mas ao mesmo tempo trágico. A cena me levou a este tema, sobre o qual já estava querendo escrever há algum tempo, por se tratar de tema importante, e sempre presente em minhas reflexões.

Há uns trinta anos atrás, li um livro sobre budismo muito bom, acho que com o título BUDISMO – O Caminho da Correta Compreensão, ou algo parecido.

O livro mostrava como se precessa o nosso contato físico e mental com as coisas, e como surgem o apego e o desejo, e como eles se renovam.

A sequência, salvo engano, era a seguinte: Contato – Percepção – Sensação – Apego – Desejo.

Primeiro entramos em contato com o objeto, físico ou apenas no plano das ideias, na mente. Em seguida, vem a percepção. Pelos sentidos físicos, se o objeto for externo, penetram imagens, sons, cheiros, etc, e o cérebro/mente é quem percebe. Aí acontece então a sensação. Prazer ou dor. Gostamos ou não gostamos do que percebemos. E se gostamos, guardamos e retemos a sensação, o que representa já o início do processo do apego.

Quando há vários contatos com a mesma coisa, várias percepções se dão, e muitas sensações são sentidas pela mente. E essa repetição vai lentamente fortalecendo nosso apego àquilo que gostamos, que nos dá prazer. E buscamos naturalmente repetir sempre as sensações que nos são agradáveis.

Normalmente não temos vontade de repetir o contato e a sensação relacionados com coisas que nos causam dor e sofrimento. Isso só acontece com as pessoas masoquistas, que buscam sensações de dor e sofrimento, o que é uma anomalia da mente, e uma doença.

A repetição constante dos contatos, das percepções e sensações vão fortalecendo cada vez mais nosso apego, e então desejamos renovar mais e mais o contato com o mesmo objeto. Isso é o desejo, filho do apego.

Quanto mais fortalecido se torna o apego, pela repetição constante dos contatos com os objetos que nos dão prazer, mais passamos a desejar esses contatos prazeirosos.

Então, ficamos presos num ciclo vicioso, de contato, percepção, sensação, apego e desejo, e vamos nos prendendo cada vez mais, nos apegando cada vez mais, e lógicamente isso desencadeará mais e mais desejos.

Sem que percebamos, vamos aos poucos nos tornando escravos de nossos desejos. Não mais controlamos nossos desejos, que correm soltos, como animais selvagens ferozes.

Nos tornamos escravos dos desejos de comer e comer, e nos tornamos obesos e portadores de vários tipos de doenças. Viramos escravos dos desejos de ingerir bebibas alcoólicas, e vamos aos poucos virando alcoólatras sem sentir. Os desejos incontrolados levam à busca defrendeada de vários tipos de droga, de sexo promíscuo e até algumas vezes bestial, como o sexo com animais, a zoofilia, ou o sexo com crianças, a pedofilia.

É triste vez alguém escravo dos desejos. Eu bem sei o que isso significa.

O que chamamos de vício é apenas o apego excessivo gerando desejos incessantes e descontrolados de manter contato com algo que nos dá prazer. Pode ser álcool, droga, comida, sexo ou outra coisa qualquer.

A estrutura do vício é uma só. Porque ele é apenas apego. Muda apenas o objeto do apego e do desejo.

A escravidão dos desejos causa muito sofrimento, mesmo que a pessoa ainda não tenha se dado conta de que é dependente de alguma sensação. Nem sempre o alcoólatra ou o toxicônomo têm consciência da dependência, do vício, do apego sem controle.

Quando a pessoa corre atrás de álcool desesperadamente, diariamente, ou de uma droga, para cheirar ou injetar em suas veias, ou procura desesperadamente um parceiro sexual, seja ele quem for, do mesmo sexo ou do oposto, já sem muito critério, para a satisfação momentânea dos sentidos, atingindo orgasmos que acalmarão a mente por apenas algumas horas, o sofrimento já está instalado, e a dor está presente. A pessoa já se tornou escrava de seus próprios desejos, sem sentir, sem perceber.

O apego não dá aviso-prévio. Nós o alimentamos de forma irresponsável, e ele cobra, gerando mais e mais desejos, sem que então consigamos controlar os desejos.

O escravo dos desejos simplesmente aje por impulso, sendo impelido a agir, sem pensar muito nas consequências da satisfação dos desejos. Não percebe que quanto mais satisfaz os desejos, mais desejos surgirão, pois a satisfação dos desejos reforça cada vez mais o apego, e ele gera mais e mais desejos, num ciclo vicioso e numa cadeia difícil de ser quebrada.

É preciso primeiramente perceber e se conscientizar da roda que gira, desde o contato até o desejo. Se estivermos atentos a cada contato, a cada percepção, a cada sensação surgida na mente, perceberemos o processo do nascimento do apego, e da geração dos desejos, e então poderemos, querendo, mas querendo de verdade mesmo, dar início ao processo de libertação do apego, e de desmantelamento e dissolução da roda e do ciclo vicioso que nos leva a repetir e repetir inconscientemente a busca da satisfação dos desejos.

Se começarmos a ficar mais atentos, e começarmos a dissolver os desejos, simplesmente não os realizando, quando forem indevidos, indesejáveis racionalmente para nós, e por nos causarem dor e sofrimento, então vamos aos poucos esvaziando a taça dos desejos, e com isso o apego vai gradativamente perdendo a sua força.

Assim como a satisfação repetida e constante dos desejos reforça o apego, a não satisfação o enfraquece, esvaziando aos poucos a taça dos desejos, e o apego perde força aos poucos, até a libertação total da mente.

O apego é a fogueira, e o combustível necessário para manter o fogo aceso são os desejos. Assim, não alimente o fogo do apego, não reforce o apego com a satisfação constante dos desejos que quer dissolver da mente.

Para diminuir a intensidade da chama, ou seja, para dimuir e enfraquecer a intensidade do apego, é preciso deixar de alimentar o fogo, simplesmente negando satisfação aos desejos.

É preciso querer muito. Mas é preciso ter ciência de que o processo não é tão fácil quanto parece. Racionalmente é muito simples, mas na prática a coisa não é tão simples quanto parece.

Livrar-se de um apego, de um vício, dá muito trabalho, mas muito trabalho mesmo, e quem já empreendeu essa luta interior bem sabe do que estou falando. Mas nada é impossível para quem tem força de vontade firme, quem realmente deseja se libertar da escravidão dos desejos.

O segredo, se é que posso falar assim, é ir deixando de realizar os desejos. Desejo chegou, não satisfaz. Desejo chegou novamente, batendo forte na porta da frente, ou na porta dos fundos, sutilmente, subrepticiamente, não abra, não satisfaça o desejo, não o realize, e ele irá aos poucos perdendo a sua força.

Pode ser um processo lento, mas é eficaz. A satisfação contínua dos desejos só reforça o apego, e a corrente da escravidão aos desejos com isso somente fica mais forte, mais grossa, o que vai necessitar no futuro de mais energia e vontade firme para dissolver o apego.

Estejamos atentos aos nossos desejos. Sejamos observadores de nós mesmos, de nossos processos mentais, de nossas reações aos contatos com as coisas variadas, com nossas percepções, nossas sensações, para podermos entender melhor os processos de formação e fortalecimento dos apegos, e só assim trilhar o árduo caminho da libertação.

Sei o quanto é difícil lutar contra a maré interior do apego, lutar contra os desejos incessantes e descontrolados a exigir satisfação o tempo todo, e a todo momento. Mas é preciso ter força para essa árdua luta interior, e coragem, muita coragem para dizer não aos seus próprios desejos, principalmente quando ainda sentimos muito prazer no contato com o objeto do nosso vício, de nosso grande e excessivo apego. Mas é dizendo não a nós mesmos, a essa parte de nós que não sabe se conter e se controlar que iremos ganhar autocontrole de verdade, e vamos nos tornar livres de verdade, não mais estando sujeito ao controle de nossa parte pouco evoluída.

Não sejamos escravos de nossos desejos, mas senhores de nós mesmos, de nosso próprio destino e de nossa felicidade.

Muita Paz.
Salvador, 15 de março de 2009.
Luiz Roberto Mattos

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