A SOLIDÃO

Print Friendly, PDF & Email
Avalie o artigo

A solidão é uma condição que me faz refletir sobre muitas coisas. Por isso hoje gostaria da escrever sobre ela.
A palavra solidão deriva da palavra só, e ela (solidão) traz em si mesma um peso muito grande.
Falar em estar só, ou estar solitário, ou na solidão é falar em uma situação triste.
Normalmente sequer gostamos de falar na solidão.

Todavia, temos visto cada dia mais pessoas solitárias, mesmo vivendo na multidão, o que é um paradoxo.
Estou agora na cidade de São Paulo, uma das maiores cidades do planeta, e sei que aqui tem muita gente solitária, mas não é a única cidade grande que abriga pessoas solitárias no mundo.
Todas as cidades grandes abrigam também pessoas que sofrem de solidão, e isso aumenta sem parar.
Por que isso acontece?

Voltando no tempo, vemos que antes da criação do que chamamos de civilização não existiam pessoas solitárias.
O ser humano antes da criação de cidades vivia em aldeias pequenas, ou tribos, com populações pequenas.
Nessa estrutura social simples e pequena, todos se conheciam, interagiam mais, eram mais solidários nos problemas e nas dores, cooperavam mais, dividiam e trocavam mais, não apenas alimentos, caças, mas também as dificuldades e os problemas. E isso não dava espaço para o estresse da vida “civilizada” de hoje, nem permitia a vida solitária.
Com o passar do tempo, o homem criou cidades, que foram crescendo e crescendo, cada vez mais. Até que as pessoas já não tivessem mais condições de conhecer todas as outras que moravam na mesma cidade.

As cidades antigas eram horizontais, tendo apenas casas, mas logo muitas pessoas passaram a ser estranhas para as outras na mesma cidade.
A solidariedade, a cooperação, a divisão, a troca, etc, que antes existia nas tribos, vilas e aldeias horizontais deixaram de existir, e instalou-se o individualismo.
De repente, dentro dessa estrutura, surgiu a solidão, mesmo junto de centenas ou até alguns milhares de pessoas, como em Jerusalém e Roma, por exemplo, há dois mil anos atrás.
Mais tempo se passou, e o homem criou aldeias verticais, de muitos metros de altura, e de muitos andares, os edifícios de apartamento.
Hoje, já no início do século vinte e um, vivemos em aldeias verticais de quinze, vinte ou mais andares, partilhando um espaço em parte comum com pessoas totalmente estranhas para nós.
Grande parte dos seres humanos hoje vive em cidades com milhões de habitantes, e moram em edifícios altos, com muitas famílias estranhas.

Para quem divide um espaço geográfico – uma cidade – com dois, três ou dez milhões de pessoas, é impossível conhecer a todos, e muito menos se relacionar com todos.
Quando entro em um elevador no meu edifício, e cumprimento as pessoas, às vezes sem qualquer resposta, fico pensando em tudo isso que criamos, toda essa estrutura social gigantesca, com muita gente morando em aldeias verticais e sem se conhecerem, sem cooperarem, sem dividirem coisa alguma, e muitas vezes mal se tolerando.
Fico então comparando essas aldeias verticais com as aldeias horizontais dos indígenas, mesmo os atuais.
Os índios vivem em sociedade! Eles caçam juntos, coletam frutos juntos, se reúnem na beira da fogueira para dançar e contar estórias, para celebrarem várias coisas juntos, cantarem juntos, etc.

Nós muitas vezes moramos em edifícios que possuem a mesma quantidade de pessoas de uma aldeia indígena, mas nosso estilo de vida é totalmente diferente do deles.
Nós não conhecemos os moradores de nossa aldeia vertical. Podemos ver um ou outro no elevador. Mas não os conhecemos. Não sabemos sequer seus nomes, sua profissão, seus problemas, suas dores, suas angústias, seus dilemas, e não partilhamos nada, absolutamente nada com eles. Não queremos intimidade!
Não temos pelo chefe de nossa “tribo” que mora na aldeia vertical, que é o síndico, o mesmo respeito e obediência que os índios têm pelo cacique deles, o chefe da tribo.
Hoje temos tanta gente vivendo solitária nos edifícios. Gente separada. Gente órfã. Idosos meio abandonados pelos filhos. Órfãos de pais vivos, órfãos de filhos vivos.
Pessoas doentes dentro de casa sem que o vizinho de porta saiba, e sem que sequer se importe.

Há casos, e isso já aconteceu muitas vezes mesmo, de uma pessoa que mora sozinha morrer e os parentes só descobrirem três ou quatro dias depois, porque vizinhos sentiram um mau cheiro no apartamento do vizinho e chamaram o síndico do edifício para abrirem a porta, e encontraram a pessoa morta no chão do apartamento. A decomposição física já havia se iniciado.
Isso parece loucura! Isso é impensável e inacreditável se contado para um índio!

Em uma aldeia indígena, se uma pessoa não se levanta da esteira pela manhã, porque está doente, toda a aldeia se comove, se movimenta, e se envolve no processo de ajuda ao doente, porque a dor de um é a dor de todos. O problema de um é problema de todos, não apenas daquele que tem um problema.
Com isso, não existe solidão em uma aldeia indígena, que é um exemplo de sociedade.
Sociedade é uma estrutura em que os sócios têm um objetivo comum.

Em nossas “aldeias” verticais, não vivemos em sociedade. Somos apenas um aglomerado de pessoas morando em uma área em parte comum, mas isolados dentro de um espaço fechado só nosso, e que não partilhamos com mais ninguém, a não ser com a nossa família.
A solidão não deveria existir!
Precisamos acabar com a solidão na multidão, fruto do individualismo criado pelo nosso modelo de “sociedade”, na verdade um mero aglomerado humano.
É claro que não conseguiremos conhecer todas as pessoas que moram na mesma cidade. Mas podemos, sim, conhecer todas as pessoas que moram em nosso edifício.
Podemos cooperar, partilhar, e nos solidarizar com a dor dos outros, e não apenas dar um frio bom dia, boa tarde ou boa noite no elevador, sem nem olhar nos olhos do outro que mora ao lado.
Vamos tentar conhecer e cooperar com as pessoas que vivem em nossa aldeia vertical.

Há tantas pessoas boas, honestas, bacanas, idealistas e espiritualizadas em nosso edifício e nós não sabemos.
Quantas pessoas agora estão em depressão, isoladas, solitárias, precisando de ajuda, de um ombro amigo, precisando apenas que alguém ouça seus problemas, para aliviá-los…e essas pessoas estão aí ao seu lado…alguns são seus vizinhos de porta…abra os olhos da alma…abra o coração…passe a enxergar seus irmãos de aldeia…preocupe-se com eles..dê-lhes atenção…só um pouquinho…isso pode ser a diferença entre querer continuar vivo e desejar a morte…a diferença que evitará quem sabe um suicídio já planejado…
Vamos tentar mudar essa situação!

Alguém tem que tentar fazer alguma coisa, tem que tomar a iniciativa.
Idosos que moram só, ao lado de idosos que moram só…poderiam ser amigos…poderiam fazer companhia um ao outro…
Um papinho rápido de vez em quando pode salvar vidas!

Trocar uma sopinha, um pão fresco, um pedaço de bolo, como alguns ainda fazem em pequenas cidades do interior, talvez até um presentinho vez por outra…isso faz amigos…isso faz irmãos…isso une…isso gera amor…
Vamos acabar com a solidão!!!
Solidariedade, sim; solidão, não!

Diga não à solidão! Saia da casca do isolamento, perca o medo da intimidade! Amigos precisam ser íntimos mesmo!
O medo de se expor e o medo de se abrir devem ser superados, para criarmos novos laços de amizade, que tornarão nossa vida mais alegre, e diminuirá a nossa solidão.
Ninguém é feliz solitário!

Vamos resgatar os solitários! Vamos ser mais solidários!

Muita Paz!
Salvador, 21 de junho de 2010.
Luiz Roberto Mattos

Conheça nossa loja virtual: http://mestresanakhan.com.br/loja/

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *