Conversas com Jesus

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A proximidade da Semana Santa me fez pensar em colocar aqui alguns textos sobre Jesus, incluindo capítulos de livros já escritos por mim.
Inicio com o capítulo 4 do livro “Escrevendo na Areia – Conversas com Jesus”, um romance com diálogos fictícios, como esse que segue abaixo, e alguns baseados nos textos dos evangelhos.

Certa vez, pela noite, em Cafarnaum, após falar para as pessoas que foram na casa de Pedro ouvi-lo, Jesus saiu com ele para dar uma caminhada na beira do Mar da Galiléia.
A noite como sempre estava bela, o céu estrelado, sem nuvens, pois em Israel raramente chovia. Ventava pouco naquela noite, e não fazia frio.
Os dois recentes amigos, sozinhos, andavam lentamente pela areia, admirando as águas tranquilas, e o reflexo da lua cheia na superfície do mar calmo. Então Pedro iniciou a conversa:
– Mestre, pelo que sei, mesmo sendo um pequeno pescador, ignorante, que não sabe ler nem escrever, o povo de Israel espera por um messias que o liberte dos romanos, nossos dominadores. Fico então pensando se o povo vai aceitá-lo como o senhor é, falando de perdão, de reconciliação, de amar os inimigos, orar pelo que nos perseguem e desejar o bem aos que nos caluniam…
– Pedro, – começou Jesus – de fato o povo espera por um outro tipo de Messias, e um outro modelo de Salvador. As profecias falam que com o Messias Israel reinaria sobre setenta nações. Mas acontece que muitas coisas das profecias são simbólicas, e possuem sentido apenas figurado, são alegorias. Nem tudo que está escrito se cumprirá ao pé da letra. É preciso possuir a chave da verdadeira interpretação, e perceber o espírito que vivifica, e não apenas a letra que mata.

– O senhor nada fará para livrar nosso povo dos romanos? – perguntou Pedro.
– Se você fala em revolta, luta, guerra, morte, não, nada farei. Quem com ferro fere, com ferro será ferido.
– Mas é isso que o povo espera, mestre, e muitos desejam lutar pela liberdade.
– Pedro, a liberdade que eu ofereço é de outro tipo, e mais profunda e verdadeira.
– E qual é o tipo de liberdade que o senhor nos oferece, mestre?

– A libertação dos pecados, da consciência pesada, do ódio, das guerras e dos sofrimentos.
– Mas mestre, devemos nos conformar e aceitar o jugo romano, esse opressor que nos tira impostos indevidos, e que crucifica nosso povo só porque ele reclama?
– Pedro, tudo aqui neste mundo é passageiro, inclusive a própria vida. Tudo o que você vê não demorará a desaparecer, principalmente o corpo de carne, seja humano, seja dos animais, e também as casas, os templos, os palácios, o ouro. Nada nos acompanhará eternamente, a não ser o Espírito. Os romanos permanecerão por aqui mais algum tempo, mas depois seu império ruirá, como tantos outros que existiram antes do império deles. Quantos povos já surgiram e desapareceram do mundo, apesar de acharem que durariam para sempre. Nada é eterno, a não ser o Espírito.

– Mas enquanto há dominação, há revolta, e sofrimento – disse Pedro.
– Pedro, os romanos andam aqui em Cafarnaum batendo, prendendo, crucificando ou abusando de suas esposas?
– Não, mestre. Eles só vêm aqui de tempos em tempos, e mesmo assim quando julgam ser indispensável. Até a cobrança de impostos aqui é feita por judeu, no caso, Mateus.
– Então eles não me parecem tão maus. Vejo que eles só maltratam e matam aqueles que se revoltam e tentam enfrentá-los. E isso é comum nos que dominam.
– Mas mestre, se deixarmos de reclamar…
– Eles deixarão de matar, de crucificar, e não se preocupando mais com a revolta, construirão mais estradas, aquedutos, portos, banhos públicos, teatros e outras coisas mais. – disse Jesus interrompendo Pedro.
Pedro olhou para Jesus por alguns instantes. Pensou no que ele havia dito, e depois continuou:
– É, nisso o senhor tem razão. Sem que alguém atente contra a dominação, os romanos não fazem mal a ninguém. Eles normalmente não nos incomodam aqui, porque o povo da aldeia, muito simples, não é revoltado, e não lhes causam problemas.

– E vocês sofrem muito por causa dos romanos? – perguntou Jesus.
– Aqui não, mestre. Nossa vida em quase nada é alterada por causa deles. Somente há a questão dos tributos, que não nos agradam.
– Mas nos povos civilizados o tributo é uma necessidade, para que os governantes possam realizar obras de interesse público, como os banhos públicos de Jerusalém. Como você acha que os romanos construíram os banhos e os teatros, que o povo de Jerusalém tanto gosta? Os tributos pagaram as obras.
Pedro, por nunca entender a questão dos tributos, se admirou da explicação tão simples. E acabou concordando com Jesus.
– É, mestre, os tributos não são uma questão tão grave ao ponto de nos levar a uma guerra.
– E qual seria a causa justificável para levar o povo à guerra, Pedro?
– Não sei, mestre, às vezes fico confuso. Nosso povo não aceita a dominação.
– Por orgulho. – disse Jesus.

– E quem gosta de ser dominado, mestre? Há erro em não querer ser dominado?
– Pedro, Deus, nosso Pai, nada faz de inútil, e não nos impõe nenhum castigo ou expiação que não mereçamos. Assim sendo, deve haver necessariamente uma causa para o que o nosso povo passa hoje. E não estão ainda maduros para entender o intrincado jogo de causas e efeitos e a vontade de Deus.
– Quer dizer que é a vontade de Deus que o povo seja dominado pelos romanos?
– Se não fosse, não existiria a dominação, ou você acha que os romanos são mais poderosos do que Deus?
– Claro que não, mestre. Deve haver alguma razão, ainda que eu não possa entender no momento.
– Deus quis que vivêssemos sob o domínio dos romanos por algum tempo, Pedro. E se nos revoltarmos, somente tornaremos as coisas ainda piores, porque os romanos nos destruirão, e nada que fizermos nos livrará desse fato. Só nos resta a melhor alternativa, que é a aceitação da vontade de Deus, e continuarmos a viver a nossa vida normalmente, sem nos preocuparmos com os romanos. Deixem os romanos em paz, e eles por sua vez deixarão nosso povo em paz.
– Mestre, e quando eles irão embora?

– Não é dado ao homem conhecer esse tempo. Só Deus o sabe. Só temos que aceitar a nossa situação, e trabalharmos para o nosso crescimento enquanto nação, enquanto povo, renovando a nossa religião, a nossa forma de governar, a nossa forma de viver e de nos relacionarmos uns com os outros.
– Mestre, será que as pessoas vão escutar suas palavras, e segui-lo?
– Não sei, Pedro. Mas tentarei. Se não me ouvirem, e insistirem em lutar com os romanos, nitidamente mais fortes em exército, nosso povo será massacrado, e quase desaparecerá para sempre da Terra.
Pedro, diante das palavras de Jesus, espantou-se. Nunca havia pensado tão longe. Nunca imaginara que o povo viesse a ser um dia massacrado.
– Pedro, se o povo tentar lutar, revoltado com a sua situação, coisas muito piores acontecerão. Ainda no meu tempo milhares já foram crucificados, por causa de revolta. Mas poderá ser ainda pior, com a destruição completa de Jerusalém e outras cidades. Nosso povo terá que escolher entre viver em relativa paz, apesar de dominados pelos romanos, ou a morte, a destruição, e a total falta de paz.
– Não há muita escolha, mestre.

– Não, Pedro, em realidade não há, quando se trata de aceitar e conviver com os romanos. Mas quanto à paz, podem escolher. O povo pode viver lado a lado com os romanos até que eles se vão, e chegará esse dia. Mas se não se submeterem à vontade de Deus, então serão mortos, e os que sobreviverem ao grande massacre serão vendidos pelo mundo como escravos. E seus descendentes demorarão muito para voltarem a essas terras. Isso não é pior?
– Sem dúvida, mestre. Hoje somos homens livres, não escravos. Apenas pagamos tributo a César. Mas não somos seus escravos, e, sem que criemos caso, somos respeitados em nossas tradições pelos romanos, que sequer impedem nossos cultos e crenças, mesmo sem concordar conosco, pois são pagãos.
– A vida não é tão ruim assim, não é mesmo, Pedro? – perguntou Jesus, sondando seu novo discípulo, para ver sua opinião, e poder trabalhá-la, esclarecendo Pedro.
– Não, mestre. Aqui pescamos, fazemos festa, bebemos vinho e comemos peixe assado, pão e carne de carneiro. Nossa vida é boa.
– Não ponham tudo a perder, Pedro, com revolta e luta. A guerra só traz sofrimento e dor. Deixa sempre órfãos e viúvas. E as cicatrizes geralmente levam muito tempo para serem fechadas. O rastro de ódio que fica atrás das guerras é tão marcante que nada a justifica. Devemos amar nossos irmãos e também nossos inimigos, procurando compreendê-los. Os romanos precisam conquistar. Sem as conquistas eles não conseguem viver. São guerreiros por excelência. E Deus se aproveita de suas características para espalhar algumas coisas de sua cultura pelo mundo que eles conquistam. O Direito, a higiene, o conforto da civilização, com água encanada através dos aquedutos, banhos públicos, piscinas, circo, teatro e outras coisas. E até as guerras diminuíram, por incrível que pareça, nas regiões por eles conquistadas. É comum aos povos fazerem guerra por motivos pequenos, por pura conquista também. Os romanos não são os únicos.
– Seria tão bom se as pessoas e os povos pudessem conviver em paz, sem guerras…
– Dia chegará, Pedro, em que não mais haverá guerras, nem ódio, dominadores ou escravos. Mas para isso é preciso que plantemos agora, no presente, o futuro de paz, através da aceitação dos dominadores, respeitando-os e fazendo com que eles se sintam amados, e não odiados. Amando-os, mais rapidamente eles se retirarão, pois dia chegará em que se sentirão envergonhados de dominarem pelos exércitos.

– Acredito nisso, mestre, mas tenho dúvidas se o povo vai aceitar essas ideias novas e revolucionárias. Acho mesmo que isto provocará uma revolução de pensamento, muito mais poderosa do que a revolução das armas.
– Sim, Pedro, vejo que você bem me compreende. E por isso quis ter primeiro esta conversa com você em particular, para que você possa me auxiliar no convencimento dos demais. Você será a pedra fundamental da nova religião do amor. Vamos espalhar pelos quatro cantos do mundo a ideia do amor, do perdão das ofensas, da reconciliação com os inimigos, da aceitação da dor e da não revolta contra a vontade de Deus. É preciso que todos saibam que nenhum sofrimento dura para sempre. Tudo é transitório, e muda. A nossa dor serve de lapidação para a nossa alma, que precisa crescer e se renovar sempre, para atingir as alturas dos céus.
– Sim, mestre. Agora entendo. Conte comigo sempre. Acredito nas suas ideias.
– As ideias não são minhas, mas do Pai, que está nos céus. Por isso elas são verdadeiras.
Os dois continuaram andando por mais algum tempo, mas em silêncio. Meditavam individualmente. Então Pedro propôs:
– Mestre, vamos dar um mergulho? A água deve estar quente a esta hora.
– É uma boa ideia, Pedro. – respondeu Jesus.

Então os dois pararam, tiraram parte das roupas e caíram na água…

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