Conversas com Jesus II

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Escrevendo na Areia – Conversas com Jesus

CAPÍTULO 7

Depois de alguns dias em Tiberíades, Jesus rumou com seus discípulos para Caná. Lá chegando, estabeleceram-se na casa de Saul, um amigo de Jesus.
Na primeira tarde, estando Jesus a caminhar pelas ruas com seus discípulos, um grupo de crianças se aproximou dele e tentou tocá-lo, tendo sido de imediato impedido por um dos discípulos, que pensou que Jesus não gostaria de ser incomodado por crianças. Contudo, ao ver Jesus o que estava acontecendo, disse:
– Deixe que venham até mim as crianças. Elas não me incomodam. Pelo contrário, me alegram, com sua pureza e ingenuidade.
– Desculpe-me, mestre, pensei que o senhor não queria ser incomodado e interrompido em sua marcha rumo à sinagoga para falar ao povo. – disse o discípulo.
– As crianças são o símbolo da pureza, da ingenuidade, do descondicionamento, e são o futuro. Se vocês quiserem entrar no Reino de Deus, é preciso que se tornem como as crianças.
– Devemos, pois, voltar a ser crianças novamente, mestre? – perguntou André sorrindo.

– Num certo sentido, sim, André, mas não voltar a ser pequeno em tamanho, nem chorar quando quiser uma coisa qualquer. A infância corporal não volta mais. Porém, é preciso redescobrir novamente a pureza da alma, aquela qualidade juvenil que não julga, que não odeia, que não repele aqueles que não têm a mesma religião, a mesma condição social, que não são da mesma nação. As crianças judias brincam com as crianças romanas, egípcias, gregas e de qualquer outra nacionalidade sem se importarem com a diferença de nacionalidade e com as diferenças raciais e culturais. As crianças somente perdem a pureza e a ingenuidade por influência dos adultos, que lhes ensinam que judeus não se misturam com samaritanos, com romanos ou outra classe de homens. Passam seus valores invertidos e distorcidos para as crianças, e lhes enchem de ódio e sentimento de superioridade, dividindo e afastando as crianças. É preciso que as pessoas recobrem a pureza original, esquecendo-se dos valores distorcidos que lhe impuseram, e unindo-se de forma verdadeira e simples, com base apenas na verdade de que somos todos filhos de Deus. Todas as religiões são boas enquanto levam o homem a Deus. As diferenças de rituais, de culto e outras diferenças mais não devem ser fatores de separação e divisão. São apenas detalhes, que não podem suplantar a essência das religiões.

– Mestre, – interrompeu Pedro – em nossa cultura não temos dado muita importância às crianças.
– É verdade. E isto é um grande erro. É preciso dar mais atenção às crianças, procurando educá-las de forma correta, e dentro de valores espirituais verdadeiros. A boa formação do caráter, que acompanhará as crianças por toda a vida, começa em casa, desde a primeira infância. Desde pequeninos devem já ser direcionados para uma conduta reta, honesta, pacífica, ordeira, cívica, bondosa e altruísta. Deve-se desde cedo incentivar a bondade e a humildade verdadeira, e reprimir o egoísmo desmedido. O orgulho deve ser eliminado, porque é caminho de destruição. A vaidade deve ser desvalorizada, e deve ser dado valor à mansuetude e às virtudes. A beleza da alma acima da beleza corporal, os valores espirituais acima dos valores terrenos passageiros. Ensinam-se hoje às crianças a buscarem o ouro dourado, enquanto é preciso que se ensine a busca do ouro que o tempo não destrói e os ladrões não roubam, que é o ouro espiritual. Ensina-se a odiar e a se vingar, enquanto se deveria ensinar o perdão total e incondicional das ofensas. Ensina-se a revidar uma agressão, enquanto se deveria ensinar a não-violência, a paz. As crianças são o futuro do mundo, mas somente se forem corretamente educadas dentro de valores espirituais verdadeiros e sadios. Do contrário, as crianças de hoje apenas repetirão no futuro o mesmo comportamento errado de seus pais, e nada mudará.

E Jesus continuou a abraçar e beijar as crianças que o cercavam desde o início da conversa. Todos sorriam e se alegravam na presença daquele homem bondoso e amoroso, que tinha sempre um largo sorriso nos lábios, e sempre tinha palavras doces de consolo e esclarecimento.
No caminho retomado para a sinagoga, encontraram um homem caído no chão, ferido no abdome, que sangrava. Havia pequena multidão ao seu redor, a observá-lo, mas ninguém se dispunha a ajudar o homem caído.
Ao se aproximar Jesus da multidão, todos abriram passagem para ele e seus discípulos. E então Jesus perguntou:
– O que aconteceu a esse homem que está caído?

– Alguém o feriu durante a noite, e ele já amanheceu aí no chão. – disse alguém.
– E por que ninguém o ajudou?
– Porque ele é romano, mestre. – disse um homem.
– E por isso vão deixá-lo morrer sem socorro?
– Um romano não merece viver, e não podemos ajudá-lo, pois isso nos contaminaria. – disse outro homem.
– Por que um judeu vale mais do que um romano? – perguntou Jesus às pessoas que rodeavam o ferido, e continuou falando. – Que há de verdadeiramente diferente entre os romanos e os judeus? Apenas a origem pelo nascimento. Um homem é um homem, tenha ele nascido em Roma ou em Israel, na Síria ou no Egito. Ferido, todos sangram igualmente, e todos têm a mesma cor de sangue. Acaso quando vocês sangram seu sangue não é vermelho como o dele? – Jesus apontava para o homem caído, enquanto se abaixava e punha a mão direita sobre a ferida, sujando inclusive a sua mão de sangue.

– Mas ele é dos que nos dominam e humilham. Se morrer, será menos um. – disse alguém.
– Ninguém pode nos humilhar a não ser que nós nos sintamos humilhados. A humilhação está em nós, em nossa fraqueza moral e espiritual, não nos outros. Se não possuímos orgulho, nem vaidade, ninguém nem nada nos fará sentirmo-nos verdadeiramente humilhados. A humilhação é íntima, é interior. Quando deixarmos de nos sentir ofendidos não mais nos sentiremos humilhados. Muitos há que não se importam com o fato de serem dominados pelos romanos, e não os odeiam. Vivem em sua paz, sem se sentirem humilhados. Mas aqueles que ainda são orgulhosos não aceitam ser dominados, e por isso se sentem humilhados. A causa da humilhação, portanto, não está nos romanos e seu domínio, mas no orgulho dos israelitas. Quando deixarem de ser orgulhosos, deixarão de se sentir humilhados, e passarão a ver os romanos de outra forma, como irmãos, pois que também são eles filhos de Deus, e passarão até mesmo a amá-los. Irmãos, devemos amar nossos inimigos, e mais, devemos deixar de ver os outros como inimigos, que é o ideal aos olhos de Deus. Não há melhor nem pior, superior ou inferior aos olhos de Deus. Todos somos iguais, todos somos irmãos. Deixemos de valorizar as pessoas pela sua nacionalidade ou por sua religião, e tratemos a todos de forma igual, indistintamente, e sem qualquer forma de discriminação.

Enquanto Jesus falava, o sangue ia parando de brotar das entranhas do homem deitado no chão. E pouco a pouco ele foi abrindo os olhos.
– Nosso irmão ficará bom, mas antes precisará descansar por três dias e ser bem alimentado. E, principalmente, precisa de amparo e carinho. Precisa de nosso amor fraternal. Não há outro romano em Caná no momento, e ele não pode ser levado para outra aldeia ou mesmo seguir até Jerusalém. Assim, sugiro que aquele que o feriu o leve para sua casa e cuide dele, reparando dessa forma o mal que fez, o que será muito agradável aos olhos de Deus. Digo-lhes, em verdade, que isso será muito mais valioso para o Pai do que se aquele que o feriu fosse ao templo fazer oferendas e sacrifícios. O sacrifício mais agradável a Deus é o perdão das ofensas e a reconciliação entre os desafetos e os inimigos.
Ao parar de falar, Jesus olhou para um homem no meio do povo, olhos nos olhos, de forma corajosa, mas nada disse. Desconcertado, e incomodado, o homem deu um passo à frente, aproximando-se de Jesus, e confessou:

– Mestre, fui eu que feri este homem. Sabia que ele estava espionando para os romanos, tive ódio e o ataquei durante a noite, sem que ninguém me visse. Perdoa-me. Agora sei o mal que fiz e me envergonho. E sei que o senhor sabia que havia sido eu.
– Seu arrependimento é sincero, e você teve a coragem de se confessar e se humilhar diante dos homens de sua aldeia. – disse Jesus – É isso que Deus quer, meus irmãos, arrependimento sincero das faltas praticadas. Você muito cresceu aos olhos de Deus, meu irmão, ao se confessar em público e assumir seu erro. Agora, para completar e se tornar ainda maior a sua redenção, leve-o para sua casa e cuide dele com carinho, como se fosse um irmão na carne.
O homem chorou em público, emocionado, diante da falta de julgamento de Jesus, e por não tê-lo condenado pela falta praticada.
– Mas os romanos nos destruirão quando souberem o que ele fez com esse homem. – disse outro homem presente.
O romano, que a tudo escutava até então em silêncio, temendo inicialmente ser morto, disse em voz fraca, enquanto segurava a mão de Jesus:
– Rabi, não sei se ela vale para o senhor, mas lhe dou a minha palavra que ninguém fora desta aldeia jamais saberá o que me aconteceu. Seu gesto demonstra grandeza e sabedoria, e muito me tocou. E quanto ao que me feriu, eu o perdoo, de coração, e sinceramente, em razão da sua coragem em se confessar em público e se arriscar a ser condenado e até morto pela justiça romana. E muito me honrará me hospedar em sua casa até que me recupere completamente.
Jesus sorriu, e também o homem que feriu o romano.

– Neste dia, neste momento, Deus se alegra nesta aldeia de Caná. Dois inimigos se reconciliam e dão lição de verdadeiro perdão. Que isso sirva de lição não só para Israel, mas para todo o mundo. Levem nosso irmão para a casa de seu novo amigo. Que Deus fique com todos vocês, e continue inspirando o perdão.
Muitas pessoas ajudaram a carregar o romano, com cuidado, sorrindo, e alguns até cantavam. E as demais se dispersaram, entre comentários, risos e admiração. Os discípulos de Jesus exultavam felicidade, pois jamais assistiram a um gesto como aquele, não a da recuperação do homem pela imposição das mãos de Jesus, o que se tornou secundário naquela situação, mas da confissão do criminoso em público e pelo fato de ter ele mesmo levado o ferido para cuidar em sua própria casa. E também pelo fato de a vítima perdoar o seu agressor e ir com ele para sua casa para ser cuidado até a total recuperação. Aquilo era revolucionário demais…era a total mudança de valores éticos em Israel. Era sublime demais, e lindo…

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